domingo, 27 de outubro de 2013

Crítica: Be here now - Oasis


Este é o último disco de estúdio lançado antes dos anos 2000 pelo Oasis. Na época, videoclipes veiculando na MTV eram sinal de que as bandas estavam em alta, e Be here now rendeu quatro deles - um a menos que o anterior What’s the history? (Morning glory), estouro mundial de vendas. Produzido pelo veterano Owen Morris no lendário Abey Road, mantém algumas características sonoras adotadas pela banda até então: guitarrras distorcidas tocando acordes completos ao invés de power chords, repertório alternando baladas melodiosas com roques mais pulsantes, letras fáceis de cantarolar e Noel pincelando com sua 2ª voz o vocal agressivo de Liam em algumas faixas.

O capricho com a mixagem é uma marca do trabalho. Três das canções que viraram clipe têm arranjos de orquestra em algum momento (as baladas Stand by me e Don’t go away, seguidas pela beatleniana All around the world). A faixa de abertura D’You know what I mean - outra que virou clipe - tem quase 1 minuto de introdução ruidosa antes de ser dado o primeiro acorde: começando pelo ronco de um avião, sucedem vários sons fabricados com pedais de efeito para formar uma verdadeira sinfonia de parafernálias auditivas. O video dessa faixa é aquele dos helicópteros, então não é difícil associar o toque das cordas abafadas na guitarra com wawah de Noel com as hélices dos veículos de guerra. E então o disco começa com Liam cantando em uma cadência que é quase rap, em cima de uma batida arrastada que é quase marcha. O resultado é imponente. Ao final, depois da última pratada de bateria, mais efeitos sonoros oscilam no stereo, de um lado para o outro, sugerindo uma paisagem sonora contínua de insolação no deserto ou algo parecido.

Dentre as mais agitadas, My big mouth mostra espancamento de bateria e solo de guitarra furioso logo no início. I hope, i think, i know evoca na letra a auto-preservação para pautar rebeldia (“They’re trying hard to put me in my place / and that is why I gotta keep running”) e It’s geting better (man!!) fecha o disco em tom de otimismo. A balada quase western Fade in-out  começa apenas com violões – e a participação especial de Johnny Depp no slide – para depois ganhar peso estratosférico com bateria e distorção nas guitarras. Canções mais influenciadas pelos Beatles, declaradamente a maior referência dos irmãos Gallagher, têm seu lugar no álbum. Magic pie dá espaço para Noel mostrar potencial vocal no front mais uma vez. The girl in the dirty shirt tem temática e arranjos sessentistas modernizados. Em All around the world as homenagens beiram a caricatura, mostrando que não há pudores nesse quesito – pelo contrário: são ostentadas com orgulho. Na nave espacial amarela do videoclipe remetendo ao famoso submarino. Nas modulações harmônicas se estendendo na parte final da canção. Nos “na-na-nas”. Está tudo lá.

A mixagem carregada no overdubbing durante todo este terceiro álbum da banda produz a sensação de excesso até nas canções “acústicas”. Este é, provavelmente, seu disco mais exagerado, inclusive com a rouquidão artificial da voz de Liam alcançando aqui o limite. É como se todos os recursos de produção usados em What’s the history..., que já era barulhento, fossem exponencializados. Curiosamente, Be here now vendeu, no Reino Unido, 350.000 cópias na primeira semana - um recorde -, mas “apenas” 8 milhões de unidades ao redor do mundo (14 milhões a menos que seu predecessor). A partir daí a sonoridade dos discos de estúdio da banda voltaria a ser mais limpa, sem jamais, porém, proporcionar dois dígitos na casa dos milhões de cópias vendidas. Em parte, porque o Oasis não conseguiu manter o ápice de sua força criativa – embora seu disco Don’t believe the truth (2005) tenha sido aclamado por parte da crítica e público como “o melhor”. Posteriormente veio a era da pirataria na internet e toda a indústria musical foi abalada irreversivelmente. Independente da maneira como a banda tenha passado pelo processo ao longo da última década, é bom lembrar que o disco lançado na época em que artistas eram conhecidos pela divulgação das músicas no rádio e TV é um clássico.

sábado, 19 de outubro de 2013


“Esse nosso mercado da música estava tão parado, tão nada. O que digo agora é que vamos acionar essa cadeia cultural produtiva da música que estava toda arrasada, parada. Novas pessoas, novos talentos vão gravar para gente dar uma mexida no mercado. Acho que é uma questão de justiça”, disse a cantora Rosemary.


Na verdade, discordo um pouco da cantora. A medida vem numa época em que a lógica do mercado musical é diferente. Quem ganhará(?) projeção com produção e venda de CD e DVD continuarão sendo os medalhões da MPB, do sertanejo, do axé, quem sabe algum estouro do funk ou do arrocha. Em outras palavras: o pessoal que já está aí. Ou o do jabá. A maioria de nós, artistas independentes que precisam de incentivo, ainda depende de leis de incentivo[!] caducas. Ou então gravam, produzem e vendem (essas 3 etapas podem ser feitas sem sair de casa hoje em dia) por conta própria. É inegável que o consumo de discos físicos caiu e esse é certamente um caminho sem volta. Primeiramente, por causa dos altos preços impostos pela indústria - ponto que a PEC visa, tardiamente, reverter. Depois, pela mudança no hábito de consumo, que passou a ser digital. Encaremos, o CD é o novo vinil, virou peça de colecionador. Ou então serve para dar de presente (arriscadamente), e no geral é uma versão a mais para o cartão de visitas do artista na mão de produtores. Ganhar dinheiro com venda de CD? Só se for em show ou, quiçá, numa ou outra venda online. Alguns artistas da atualidade chegam a dispensar o formado de álbum, lançando as músicas uma a uma em forma de videoclipe no youtube ou faixa no soundcloud. Atire a 1ª pedra quem não baixa tudo pela internet ou mesmo consome o que quer sem precisar baixar - a nuvem, como sabemos, chegou e está aí. E o consumo pode ser via pirataria ou pagando uma quantia SIGNIFICATIVAMENTE MENOR do que se pagaria no produto físico. Inclusive o material de encarte, que tanta gente gosta da "sensação de ter em mãos", tá disponível pela via digital. E um arquivo de MP3 permite a mobilidade muita maior num ipod da vida do que num discman (isso ainda existe?). Agora, atire a 2ª pedra o artista que não disponibiliza seu material online, e por via 0800. Eu te respondo que artista é esse. É o mesmo que descrevi lá em cima. Claro que posso estar falando besteira e nem tudo é preto no branco. Existem artistas cuja carreira se encontra num estágio intermediário, e esses ainda teriam uma necessidade real que justifica as vantagens do benefício da PEC. Não sei como, não sei quanto, depende da maneira como ele se gerencia. O que quero dizer é que a medida chegou com mais de uma década de atraso, e agora pode ter chegado em vão. Não por coincidência, num momento em que as grandes gravadoras não mais existem e portanto não mais lobbyam. A medida não deixa de ser um avanço, mas esse tipo de processo poderia ser muito mais ágil. Enquanto a politicagem engatinha com os direitos dos artistas, resta a eles fazer como sempre fizeram: se virando como podem. Vivendo de show.

quinta-feira, 17 de outubro de 2013

Crítica: Vertigem - Pedro Morais


3º disco de estúdio (solo) do mineiro que já foi zoado apresentado carinhosamente por Kadu Vianna como "o Fiuk do Cobra Coral" ao lado de Flávio Henrique e Mariana Nunes. Se nos anteriores a espinha dorsal das composições era o violão (confira nessa entrevista aos 23min20seg), aqui a produção de Gustavo Ruiz  - irmão da cantora Tulipa - põe a guitarra pra funcionar. O vozeirão de Pedro rola solto mais em cima de riffs grooveados do que de harmonias cabeçudas, a exemplo da faixa de abertura Para repetir.

Já a experimentação com teclados aparece na sequência com a agitada Liga e a seresta bastarda Bilhete, que traz os versos de Mário Quintana "se tu me amas, ama-me bem baixinho / não grites de cima dos teus telhados, deixa em paz". A faixa título, psicodélica na linha da capa do disco, começa densa na bateria tribal e corda de guitarra solta timbrando pesada enquanto os sopros remetem ao arranjo Beatle de I am the walrus. O cantor com cara de bom moço dá tensão responsa nos vocais, inclusive no refrão com falsete - e depois sem. Bad ass.

Ao chegar na metade do álbum, aparece o primeiro acorde de violão. Apenas no finalzinho de A eternizar, que tem sonoridade etérea e vai divagando as metafísicas da vida: "do que somos, pra aonde vamos? /  como vão saber agora? / se o que temos é impossível de compreender / demora". Seria o lado mais esotérico do mineiro. Também a recente revelação da cena local engajada (
por assim dizer) Juliana Perdigão dá as caras em Nuvem. Ficou um dueto bacanudo se você se liga em efeitos de eco perdurando no final das frases com notas agudas. Eu me liguei. Mas na cadência lenta que alonga cada sílaba pronunciada no verso, entretanto. Nã-ahn. A onda pós Los Hermanos não é comigo. 

Curva da noite mistura influência de duas bandas de rock que fizeram sucesso mundial mas estão separadas por algumas décadas. Começa tipo assim e depois do segundo refrão vem um solo mais ou menos nessa linha. Acho bem válido, esse recurso. Ainda mais se o artista/produtor tem banca. Porque sempre tem quem fale de "plágio", etc. Mas a verdade é, se o cara manda, bem mandado, não tem conversinha. E sim Pedro, deu onda. Falando nisso, a guitarrinha que abre Às vezes só também foi malandra. Timbragem woodstockiana sem cair no mutantismo. Fica aí um bom exemplo que distingue "influência" de "cópia": alguém pega uma linha já percorrida e vai adiante, não o contrário.

Contrariando a leveza e pegada grooveada que tomam conta do disco, O grão é exceção introspectiva, arrastada e densa até falar chega. Pedro também tem dessas facetas. E aí vem Ê, camarada! pra fechar no balanço, em tom de crítica social e com direito a alguns versos em rap - e em seguida na versão dubwise de Victor Rice, como bônus track.


O álbum foi lançado pelo selo Oi Música como premiação após o cantor se dar bem e conquistar o 2º lugar por voto popular no Festival Música Pra Todo Mundo (MPTM). Agora mais independente - desvinculou-se da produtora Cria Cultura, ligada aos trabalhos anteriores -, se arrisca em uma direção sonora mais "suja", propositalmente descompromissada e por que não dizer popular. Pedro quer ir além do formato MPB violão&voz, e quem sabe das montanhas da terrinha. Talvez o caminho seja esse, xará.